Lembro que na faculdade, no meu primeiro ano de Letras, li uma introduçao de um texto de Freud que se chamava algo como Os três golpes do narcisismo. Freud dizia que durante toda a historia da humanidade, três foram os grandes golpes que o homem recebeu e, como consequência, nunca mais foi o mesmo. Golpes que fizeram mudar as diferentes concepçoes do mundo.
O primeiro grande golpe foi quando Galileu descobriu que a Terra nao era o centro do universo, mas ela era um planeta como os outros que rodava em volta de uma estrela, o sol. Para consolar-se o homem pensou: "bom, nao somos o centro do universo, mas pelo menos somos os donos da terra e tudo o que aqui esta; somos os seres superiores". Anos e anos depois veio Darwin com sua teoria da evoluçao dizendo que o homem nada mais é do que o resultado de um processo de evoluçao de um mundo que esta em constante mudança. Consolando-se mais uma vez o homem pensou: "bom, pelo menos eu sou dono de mim mesmo". Anos depois veio a psicanalise dizendo que na constituiçao do ser humano existe uma parte, o inconsciente, que o homem nao tem acesso; ele nao pode controlar. E dai Freud começa todo o seu raciocinio que eu nao lembro mais muito bem.
Que mania de a gente querer o tempo todo controlar as coisas! E que raiva quando a gente nao consegue, quando os acontecimentos sao superiores a nossa vontade... é realmente irritante.
Lembro quando eu estudei um pouco de mitologia greco-romana e sempre tinha a imagem da Roda da Fortuna. Achava a imagem, assim como a idéia, tao grandiosa que eu ficava perplexa com a leitura das tragédias.
Nove anos de cuidados, de responsabilidades, e de repente, sem mais nem menos, quando a gente menos espera, o que se imagina impossivel, acontece para mostrar que a gente nao é dono de nada. Golpes de desespero e felicidade ao mesmo tempo.
Face ao desconhecido. Mais uma vez enfrentar esse desconhecido e aprender como viver nessa nova realidade que se prepara. As vezes cansa ter tantas etapas na vida face a esse tao familiar desconhecido.
Isso me lembra o inicio de Canto de Ossanha, de Vinicius:
O homem que diz "dou"
Não dá!
Porque quem dá mesmo
Não diz!
O homem que diz "vou"
Não vai!
Porque quando foi
Já não quis!
O homem que diz "sou"
Não é!
Porque quem é mesmo "é"
Não sou!
O homem que diz "dou"
Não dá!
Porque ninguém dá
Quando quer
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