quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Tudo de bom para todo mundo

Lendo as cronicas de Alteregos, Pós-Utopia, leitura, uma, tentando, alguma (http://pos-utopia.blogspot.com/) lembrei-me do barbaro poema Tudo de bom para todo mundo, de Michel Melamed. Vale deixar registrado. Dispensa qualquer comentario.

Pra quem não sabe desenhar gente é uma bola
com dois pontos é um traço assim
e outro assim
e outro assim

queria me dissolver na água
porque mais que tudo
mais que você amor de minha vida que
papai mamãe e Deus
e sexo e dinheiro e chocolate
eu amo a água
as coisas podem acontecer naturalmente

mas, bem,
piada não é exatamente a piada em si, ela em si,
mas quem conta:
tem gente que conta determinada piada e não tem a menor graça
tem gente que conta a mesma piada e não consegue nem terminar
sabe como é...
acontece muito de me dizerem tchau e eu ouvir te amo meio
italianado
(tchau tchau tchau tchaum tchaum teaum teaumo teaumo te aumo te amu te amo)

eu aproveito a oportunidade para renovar meus protestos de elevada
estima e consideração

atenciosamente

existem coisas que acontecem muito
outras só funcionariam todo o dia
mas todo o santo dia mais todo o santo
isto é muito difícil
exemplo:

é impossível 01 (hum) lapso cocacólíco
quando é que alguém diria
"... aquele refrigerante... como é mesmo...
aquele preto... ai meu Deus...
parecido com a pepsi..."?
nunca! seria imperdoável
você pode esquecer a luz acesa,
a idade do seu pai, o que era mesmo?
tudo bem é aceitável
mas o lapso cocacólico está em extinção
existem coisas que não podem ser magoadas

tem gente que a gente conhece há um tempão e nada
e tem gente que a gente mal conheceu e sente como se fosse um tempão
você sabe não é?

o meu negócio é rotular,
destravar no interior
não existem coincidências
existem, sim, N formas de se dizer a mesma coisa
de se dizer a mesma coisa existem formas N formas
de se dizer existem N a mesma coisa
mesma se a coisa N dizer formas de existem
tudo é muito previsível
dia seguinte à eleição?
foto na capa do jornal com candidato sorrindo em cabine
morte do Roberto Carlos?
manchetes tipo 'O TRONO ESTÁ VAGO'
ou 'O REI ESTÁ MORTO, VIVA O REI'
pós-liberação do jogo?
o surgimento de uma 'Nova Las Vegas'

deixe-me em paz, eu nasci ontem demais
mas não é por isso que ainda não
escrevi a coisa mais bonita que escrevi até hoje,
não é por isso que comunico com pesar o falecimento da
inesquecível
nem é por isso que gosto de pessoas gentis e pés
(especialmente os de dedos quase redondos)
instituto médico é legal
dentista é ruim, tem motorzim motorzim motorzim
que faz bzzzzzzziiiiii

(o problema não é ter vontade de fazer tantas coisas
e sempre perceber que não se tem o equilíbrio necessário
o problema é estar sempre atrás ou adiante de si mesmo
e é lógico: os aniversários)

agora, amigo a gente vê
quem é nos momentos difíceis
eu tenho muitos colegas,
um montão de conhecidos
mas amigo? amigo mesmo?

nunca aconteceu de me perguntarem 'oquê?' e eu entender 'ok'

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Pedaço de mim

Sempre ouvi falar, desde a minha infância, que saudade so existia na lingua portuguesa. Eu ficava imaginando como seria alguém que nao sentisse saudades. Quando comecei a estudar as linguas vi que a palavra nao existe nas outras linguas, mas o sentimento é universal. Mas, como creio que uma lingua expressa toda uma cultura que esta por tras dela, acho que nos somos mais sensitivos a ponto de lexicalizar este sentimento.

Quando meus alunos estrangeiros perguntam o que é saudade, tenho que formular pelo menos duas frases para chegar perto de toda a carga emocional que esta contida nesta palavra. Nao existe equivalencia direta.

Certa vez ouvi algo mais ou menos assim:

"Vou te dizer o que é saudade, é sentir falta, nao de outra pessoa, mas de si mesmo, de sua parte que está além de voce, que ficou com outra pessoa. Sinto saudades de vc porque sinto falta de minha parte que ficou com vc".

Complexo. Acabei concordando. Quando a pessoa que eu amo esta do outro lado do oceano, é exatamente isso que eu sinto. Saudade da minha parte que esta com ela. Isso me fez lembrar Chico, na sua belissima musica Pedaço de mim:

Oh, pedaço de mim
Oh, metade afastada de mim
Leva o teu olhar
Que a saudade é o pior tormento
É pior do que o esquecimento
É pior do que se entrevar


Oh, pedaço de mim
Oh, metade exilada de mim
Leva os teus sinais
Que a saudade dói como um barco
Que aos poucos descreve um arco
E evita atracar no cais


Oh, pedaço de mim
Oh, metade arrancada de mim
Leva o vulto teu
Que a saudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar
o quartoDo filho que já morreu


Oh, pedaço de mim
Oh, metade amputada de mim
Leva o que há de ti
Que a saudade dói latejada
É assim como uma fisgada
No membro que já perdi


Oh, pedaço de mim
Oh, metade adorada de mim
Leva os olhos meus
Que a saudade é o pior castigo
E eu não quero levar comigo
A mortalha do amor
Adeus

Quando a gente parte, deixa muitas partes com as outras pessoas que amamos. Eu procuro nao pensar nisso, senao vivo depressiva e esse nao é meu estilo.

Entao por que nao voltar? Por que nao voltar a viver ao lado de todas essas pessoas? Porque a vida é curta demais para parar em um so lugar e fazer sempre as mesmas coisas. Faz 26 anos que a vida me leva e eu gosto disso.

Dizem que nao ha ganhos sem perdas e disso eu tenho certeza. A saudade faz parte dessa perda, mas os ganhos sao tao grandes quanto.

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Lembranças

Passeando pelo blog de Paulinho Tanner (http://decreto-agrede.blogspot.com/) me dei com palavras do grande Goethe:

Todos os dias, deveríamos ler um bom poema, ouvir uma linda canção, contemplar um belo quadro e dizer algumas bonitas palavras."

Viajei no meu comentario, mas como gostei, vale deixar registrado (me fez lembrar um passado gostoso de relembrar):

Eu acredito que a arte, em todas as suas manifestaçoes, nos torna melhores enquanto seres humanos.

Fui professora de literatura durante alguns anos e vi transformaçoes humanas! Milagres? TAlvez... Eu tentava regar minhas aulas com musicas e artes plasticas e os alunos descobriam uma outra esfera da vida. Era genial... Gostoso relembrar!!!

Posso dizer que era uma seguidora de Goethe, sem saber.

Eu desacreditei do sistema politico-educacional, mas a arte sempre me fez acreditar que o ser humano ainda pode ser melhor!

Talvez seja por isso que eu ainda nao tenha desistido de tudo... Ainda que o caos exista e predomine, a vida bem vivida (regada a muita arte) ainda continua sendo uma forma de resistência.

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

L'amour

Complicadas essas historias de amor, né? Elas sao tantas e diferentes, mas no fundo a gente acaba se deparando com os mesmos sentimentos: vontade, odio, desespero, carinho, falta, preenchimento e mais outros tantos que se misturam conforme passa o tempo... Impossivel ser o mesmo depois de um grande amor ou depois de uma grande decepçao. Tornamo-nos piores ou melhores de acordo com as nossas historias.


Nao vou tomar partido dos que dizem que é preciso esquecer e recomeçar de novo e nem dos que dizem que o amor nao existe e que tudo é bobagem e que o melhor é desistir. Deixo isso para cada um. Cada um tem a sua verdade e eu respeito todas, apesar de nao concordar com todas.

Isso me fez lembrar "Dezesseis" da Legiao Urbana. Eu nao gosto de Legiao Urbana (podem me apedrejar...) mas essa musica me toca todas as vezes que eu a escuto. Suicidio passional. Renato Russo poderia ficar no senso comum e fazer uma historia de rachas, mas ele foi muito mais longe; ele foi até as consequencias de uma paixao e isso eu achei maravilhoso nele.

Bye bye Johnny com o seu coraçao partido... Corajoso? Covarde? Nao sei se cabe a nos respondermos.

Cazuza

Eu quero a sorte de um amor tranqüilo
Com sabor de fruta mordida
Nós na batida, no embalo da rede
Matando a sede na saliva
Ser teu pão, ser tua comida
Todo amor que houver nessa vida
E algum trocado pra dar garantia

Que ser artista no nosso convívio
Pelo inferno e céu de todo dia
Pra poesia que a gente não vive
Transformar o tédio em melodia
Ser teu pão, ser tua comida
Todo amor que houver nessa vida
E algum veneno antimonotonia

E se eu achar a tua fonte escondida
Te alcanço em cheio, o mel e a ferida
E o corpo inteiro como um furacão
Boca, nuca, mão e a tua mente não
Ser teu pão, ser tua comida
Todo amor que houver nessa vida
E algum remédio pra dar alegria

E a Amélia?

Lembram-se? "Ai meu Deus, que saudades da Amélia; Aquilo sim é que era mulher"...

Essa musica, apesar de toda a sua beleza, sempre me incomodou. O eu-lírico reclama até o fim da mulher que ele tem atualmente e relembra os bons tempos com a Amélia. Mas eu pergunto: por que então ele deixou a santa Amélia? Pior ainda, por que ele nao larga da diabinha atual? Talvez por que as Amélias perdem logo o interesse! São santinhas, bonitinhas, meiguinhas, submissas, mas chatas. Ennuyeuses!!!!

Isso me faz lembrar um poema de Bandeira: Mulheres

Como as mulheres são lindas!
Inútil pensar que é do vestido...
E depois não há só as bonitas:
Há também as simpáticas.
E as feias, certas feias em cujos olhos vejo isto:
Uma menininha que é batida e pisada e nunca sai da cozinha.

Como deve ser bom gostar de uma feia!
O meu amor porém não tem bondade alguma.
É fraco! Fraco!
Meu Deus, eu amo como as criancinhas...

És linda como uma história da carochinha...
E eu preciso de ti como precisava de mamãe e papai
(No tempo em que pensava que os ladrões moravam no morro atrás
[de casa e tinham cara de pau).


A beleza aqui não é física ("inútil pensar que é do vestido"), mas a beleza esta no jeito de ser, no jeito de agir. Feia, "é aquela menininha batida e pisada que nunca sai da cozinha", ou seja, a nossa Amélia querida.

Admiro os homens que admitem com seus gestos que os seus amores "não tem bondade nenhuma" no sentido de Manuel Bandeira. Que aceitam tratar e respeitar a mulher de igual para igual. Que não ficam com crises de consciência pelo fato de a mulher ser tão bem-sucedida quanto ele.

Descarto todos os "amores bondosos".

Começo

Como começar um blog? Com um poema? Com uma dissertação? Com um calculo matemático? Não sei... Apesar de que todo inicio é antecedido por um caos. Eis que estou nesta fase de caos... e acho que essa fase transformar-se-a em habitual.

Quando penso nos grandes mitos de formação do mundo (gregos, romanos, judeus, islâmicos...) tudo começou no caos. E eis que vieram os deuses e colocaram ordem para depois... para depois o caos surgir novamente. A inveja de um deus menor cria a guerra e faz o mundo voltar ao caos até vir um deus maior e ordenar tudo de novo. As historias são sempre assim e não existe um fim! é agoniante, mas como foge ao nosso controle, temos de aceitar as diferentes realidades que se instalam. Senso comum, não? Eu acho... Não sei se faço parte desse senso ou daqueles que desistiram. Isso me faz lembrar a carta de adeus de Zweig... Lembram-se?

Alias isso me faz lembrar Drummond: "E agora José... E agora você". E agora nada, o mar secou!!