quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Grande Maquina

Hoje Benazir Bhutto foi assassinada em um atentado suicida. Isso me abalou. Ela é uma personalidade importantissima para o Paquistao. Creio que seja o inicio, ou melhor, o agravamento do caos paquistanês. Como ela era lider da oposiçao e uma das favoritas para as proximas eleiçoes, inutil dizer que ela era um alvo precioso. Ela nao era a melhor mulher politica do mundo, quando ela era primeira-ministra suspeita-se que ela tenha se envolvido em corrupçao, mas ela era uma esperança para uma grande parte de paquistaneses que acreditava que um outro regime poderia entrar em vigor apos as eleiçoes. Faz parte da democracia deixar que o povo escolha seu representante politico...

Ingrid Bettancourt. Seis anos prisioneira das Farcs. Falo dela, mas nao esqueço dos inumeros jornalistas que sao refens dos grupos armados espalhados pelo mundo e que se encontram na mesma situaçao. Assim como Benazir, ela foi sequestrada quando fazia sua campanha eleitoral na Colombia...

E no meio de todo esse caos politico, (e por que nao humano?) hoje morreram 23 pessoas no Iraque. Disso, os jornais nacionais nao falaram. Por quê? Porque virou rotina. Nao sei ao certo quando começou a "guerra" (eu denomino como massacre a conta-gotas), mas faz tres anos que leio o jornal quase que cotidianamente. Todos os dias, com rarissimas exceçoes, sempre tem uma pequena nota no caderno Internacional sobre o Iraque: pelo menos quinze pessoas morrem por dia em atentados. Nunca sao politicos. Quase nunca sao soldados americanos. Raramente sao soldados iraquianos. 90% destas pessoas mortas fazem parte da populaçao de civis iraquianos que morrem todos os dias. Virou um fato cotidiano, e isso para mim é gravissimo. Eis um dos paises do "eixo do mal" segundo monsieur Bush.


Tudo isso me faz lembrar Drummond, em sua Elegia 1938. Ele transmite todo esse inconformismo que eu sinto interiormente. Todo esse "nao poder fazer nada" diante de todo esse caos que parte do humano até atingir as mais altas proporçoes. Essa fragilidade, esse mal-estar, esse inconformismo, esse desespero, essa incapacidade, esse inatingivel... etc... etc... etc...

Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.

Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a concepção.
À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.

Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.

Caminhas entre mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.

Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século, a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.

sábado, 15 de dezembro de 2007

...

"Algma coisa aconteceu
No ventre bate um novo coraçao!"

domingo, 2 de dezembro de 2007

Tem mais samba no som que vem da rua?

Escutando a musica Tem mais samba, de Chico Buarque, uma frase me chamou atençao: Tem mais samba no som que vem da rua.

Chico, assim como tantos outros compositores brasileiros, sao eternos para mim. Por mais que a ditadura nao exista mais, as musicas dele que se referem a esse nosso periodo historico continuam tendo um significado, ainda que diferente. Mas esta frase especifica me intrigou, como se eu a tivesse escutado pela primeira vez.

Ela me intriga pois o samba nao vem mais da rua. Pior, o samba nao vem! Isso é desesperador para uma adoradora do samba como eu.

Eu tive a sorte de crescer no samba. Lembro na minha infancia onde a minha familia (tanto as pessoas de sangue quanto as de consideraçao) se reunia na casa de praia do meu tio e fazia samba. Era mais ou menos uns dez tios, cada um com o seu instrumento, desde o chacoalho de arroz improvisado até o violao e o cavaquinho. Instrumentos de percussao a dar e vender. E ali se cantava e se dançava durante todo o fim de semana. Domingo a tarde tinha cara de Adoniran Barbosa, com as suas cançoes mais melancolicas pois era preciso ir embora para a cidade para trabalhar no dia seguinte.

Quando todos foram envelhecendo e as reunioes se tornaram raras (natal ou ano novo) o samba foi acabando na minha familia. Mas, felizmente, as rodas de samba à beira-mar estavam sempre la. Durante todas as férias de final de ano da minha adolescencia eu voltava para a praia e para as minhas rodas de samba. Eu nao trocava nada por isso. Era sagrado, como um ritual.

Depois que entrei na faculdade perdi contato com as minhas rodas de samba, mas nunca perdi contato com o samba. E isso porque o samba estava sempre presente. Estava na rua da qual fala a cançao de Chico. E foi ai que esta frase me intrigou: o samba nao esta mais na rua. Ele nao é mais acessivel. E isso para mim é um problema grave.

Nao vou chegar ao radicalismo e dizer que nao se produz mais samba pois é mentira. Se produz sim, mas a gente tem que procurar muito para ter o conhecimento de algo bom e novo. O samba nao esta mais na rua.

Quando volto para a praia, pasmem, mas nao existem mais rodas de samba. Acabou. Nao se faz mais samba. A musica que se ouve sao as eletronicas, misturadas ao axé da pior qualidade e, claro, o funk. Carros com os capos levantados disputando para ver quem consegue tocar mais alto. Poluiçao auditiva.

Beth Carvalho disse uma vez que o samba é uma musica de protesto! Eu achei barbara esta frase, mas eu mudaria o tempo verbal: foi uma musica de protesto. O samba vinha principalmente dos morros cariocas ou dos suburbios paulistas (sempre com base nos ritmos afro-brasileiros baianos, claro). Acabou. O mar secou, como diz Drummond. Os morros e os suburbios perderam a esperança, a alegria, a simplicidade, a inocencia. Também pudera... a violencia tomou tamanha proporçao que nao da mais.

A musica do morro deixou de ser o samba e se tornou o funk em sua forma mais podre! O funk em si, em suas raizes, é um estilo musical que me agrada e muito. Porém, a interpretaçao que nos brasileiros demos a ela nesse século XXI é horrenda. Tao violenta (violencia contra a mulher, violencia lexical, violencia na dança, e assim vai...) quanto o ambiente onde ela é gerada. Um ambiente onde a esperança se perdeu.

Lembro do funk da minha adolescência. Esse funk que dividia o terreno com o samba nas nossas periferias e morros. Eu disse "dividia" e nao "disputava". A musica que mais fazia sucesso era Eu so quero é ser feliz de composiçao de Julinho Rasta e Katia. Era um funk misturado com rap e eu gostava. Uma letra belissima que fala da violencia sofrida pela populaçao, mas a gente sente que ha esperança. Nos Bondes do Tigrao de hoje, nao ha mais nada. Tigrao engoliu Julinho, Katia, o samba e tudo o que estava no caminho.

Eu queria conhecer o Chico e perguntar se ele acredita que tem mais samba no som que vem da rua. Eu nao acredito mais... Ele termina a musica dizendo Se todo mundo sambasse, seria tao facil viver. Uma coisa que nao esta facil nos grandes centros brasileiros é viver. Sambar entao, nao se passa nem mais nas radios, quanto mais na cabeça da populaçao...