domingo, 2 de dezembro de 2007

Tem mais samba no som que vem da rua?

Escutando a musica Tem mais samba, de Chico Buarque, uma frase me chamou atençao: Tem mais samba no som que vem da rua.

Chico, assim como tantos outros compositores brasileiros, sao eternos para mim. Por mais que a ditadura nao exista mais, as musicas dele que se referem a esse nosso periodo historico continuam tendo um significado, ainda que diferente. Mas esta frase especifica me intrigou, como se eu a tivesse escutado pela primeira vez.

Ela me intriga pois o samba nao vem mais da rua. Pior, o samba nao vem! Isso é desesperador para uma adoradora do samba como eu.

Eu tive a sorte de crescer no samba. Lembro na minha infancia onde a minha familia (tanto as pessoas de sangue quanto as de consideraçao) se reunia na casa de praia do meu tio e fazia samba. Era mais ou menos uns dez tios, cada um com o seu instrumento, desde o chacoalho de arroz improvisado até o violao e o cavaquinho. Instrumentos de percussao a dar e vender. E ali se cantava e se dançava durante todo o fim de semana. Domingo a tarde tinha cara de Adoniran Barbosa, com as suas cançoes mais melancolicas pois era preciso ir embora para a cidade para trabalhar no dia seguinte.

Quando todos foram envelhecendo e as reunioes se tornaram raras (natal ou ano novo) o samba foi acabando na minha familia. Mas, felizmente, as rodas de samba à beira-mar estavam sempre la. Durante todas as férias de final de ano da minha adolescencia eu voltava para a praia e para as minhas rodas de samba. Eu nao trocava nada por isso. Era sagrado, como um ritual.

Depois que entrei na faculdade perdi contato com as minhas rodas de samba, mas nunca perdi contato com o samba. E isso porque o samba estava sempre presente. Estava na rua da qual fala a cançao de Chico. E foi ai que esta frase me intrigou: o samba nao esta mais na rua. Ele nao é mais acessivel. E isso para mim é um problema grave.

Nao vou chegar ao radicalismo e dizer que nao se produz mais samba pois é mentira. Se produz sim, mas a gente tem que procurar muito para ter o conhecimento de algo bom e novo. O samba nao esta mais na rua.

Quando volto para a praia, pasmem, mas nao existem mais rodas de samba. Acabou. Nao se faz mais samba. A musica que se ouve sao as eletronicas, misturadas ao axé da pior qualidade e, claro, o funk. Carros com os capos levantados disputando para ver quem consegue tocar mais alto. Poluiçao auditiva.

Beth Carvalho disse uma vez que o samba é uma musica de protesto! Eu achei barbara esta frase, mas eu mudaria o tempo verbal: foi uma musica de protesto. O samba vinha principalmente dos morros cariocas ou dos suburbios paulistas (sempre com base nos ritmos afro-brasileiros baianos, claro). Acabou. O mar secou, como diz Drummond. Os morros e os suburbios perderam a esperança, a alegria, a simplicidade, a inocencia. Também pudera... a violencia tomou tamanha proporçao que nao da mais.

A musica do morro deixou de ser o samba e se tornou o funk em sua forma mais podre! O funk em si, em suas raizes, é um estilo musical que me agrada e muito. Porém, a interpretaçao que nos brasileiros demos a ela nesse século XXI é horrenda. Tao violenta (violencia contra a mulher, violencia lexical, violencia na dança, e assim vai...) quanto o ambiente onde ela é gerada. Um ambiente onde a esperança se perdeu.

Lembro do funk da minha adolescência. Esse funk que dividia o terreno com o samba nas nossas periferias e morros. Eu disse "dividia" e nao "disputava". A musica que mais fazia sucesso era Eu so quero é ser feliz de composiçao de Julinho Rasta e Katia. Era um funk misturado com rap e eu gostava. Uma letra belissima que fala da violencia sofrida pela populaçao, mas a gente sente que ha esperança. Nos Bondes do Tigrao de hoje, nao ha mais nada. Tigrao engoliu Julinho, Katia, o samba e tudo o que estava no caminho.

Eu queria conhecer o Chico e perguntar se ele acredita que tem mais samba no som que vem da rua. Eu nao acredito mais... Ele termina a musica dizendo Se todo mundo sambasse, seria tao facil viver. Uma coisa que nao esta facil nos grandes centros brasileiros é viver. Sambar entao, nao se passa nem mais nas radios, quanto mais na cabeça da populaçao...

3 comentários:

Unknown disse...

Oi, menina!
Adorei! Já disse que amo Chico e agora vou dizer que amo Adoniran.
A respeito da atemporalidade dos sons do Chico, eles são mesmo. Mas tem uns super atuais, tipo o Iracema, você deve conhecer. cho Muito bom!
Mas realmente, em termos de samba não vejos mais nada "a nata da malandragem" produzindo nada, o que é curioso se a gente for pensar que nossa identidade de brasileiro se funda bastante nisso.
Achei seu texto lindo e cheio de um tom romântico, mas sem ter uma intelectualidade afetada.

Respondendo à sua pergunta, nunca escrevi livro nenhuma, essas narrativas de agora são minha primeira tentativa.

Bjos!

Anônimo disse...

Não sou tão conhecedor de samba assim, mas até os meus 14 anos carnaval no Rio era samba de verdade e com direito a marchinhas. cabeleira doZezé, jardineira, bandeira branca. Só sucessos (não estou sendo irônico) Fiquei um pouco saudosista ao ler seu texto. Marchinhas agora só no computador.
:(

Caldinas disse...

Olá,

Muito obrigado pela visita ao iColetivo!

Não quer deixar um sonho lá?

Beijo